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Selo incentiva protagonismo jovem na agricultura familiar

26 de Janeiro de 2018, 11:41 , por Mariana Lozzi Teixeira - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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No Goiás, a cerca de 50 Km de Brasília (DF), em meio a típica vegetação do Cerrado, existe uma terra com mais de quatro hectares de extensão, que carrega um belo pedaço da história do povo negro no Brasil. O quilombo do Mesquita leva este nome pois formou-se nas redondezas de uma fazenda que pertencia ao seu João Mesquita. De acordo com o mito que conta sobre a fundação do lugar, o fazendeiro deixou parte de suas terras a três escravas a quem estimava. Lá, foram formadas as famílias Pereira Braga, Lisboa da Costa e Teixeira Magalhães, que fizeram morada na região e construíram a comunidade quilombola que ainda hoje resiste, mantendo suas tradições e cultura.

 Hoje com 271 anos, o Quilombo do Mesquita é conhecido pelo modo de vida simples: as quase 300 famílias que habitam na região sobrevivem principalmente da venda de produtos artesanais e da agricultura familiar. São produzidas hortaliças, verduras, banana, goiaba, mandioca e cana-de-açúcar, além da tradicional marmelada, fruto da principal matéria-prima do quilombo. Tudo é vendido na Cidade Ocidental (GO), a oito quilômetros dali, ou nas redondezas. Algumas vezes, as famílias vêm até Brasília e trazem seus produtos para as feiras da capital.

Sandra Pereira Braga, da sexta geração de quilombolas e presidente da Associação Renovadora do Mesquita, conta que a agricultura familiar é uma das grandes responsáveis pela preservação da natureza local. “O quilombola tem essa preocupação de preservar a terra, a água. Sem isso, não tem como ele sobreviver”, explica. “Além disso, o alimento que chega na mesa do brasileiro, que vem da agricultura familiar, é muito mais saudável”, opina.

 A Coordenadora Geral de Políticas para Mulheres Rurais, Juventude, Povos e Comunidades Tradicionais da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (Sead), Jana Romanin, explica que “a tradição quilombola em torno da agricultura familiar e da produção artesanal resulta de um processo histórico e de reprodução dos costumes entre as distintas gerações, que continua sendo mantido até hoje, mesmo diante das muitas dificuldades”. Além disso, a agricultura familiar contribui diretamente na preservação da cultura negra quilombola e, sem ela, os quilombos poderiam simplesmente desaparecer.

Para Jana Romanin, é de extrema importância que hajam políticas públicas que fortaleçam e deem visibilidade aos produtos quilombolas. “São produtos que agregam saberes étnico-culturais, utilizam matéria-prima local e práticas de produção ambientalmente sustentáveis, mas, principalmente, são estratégicos na promoção da autonomia dessas comunidades. A divulgação da origem, atribuição de identidade cultural aos produtos, demonstrando os modos de produção, a relação da comunidade com a atividade produtiva e a agregação do valor étnico são os diferenciais neste processo”, explica a coordenadora.

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Quilombos do Brasil

Para fortalecer a cultura quilombola e valorizar o produto que vem dessas comunidades, a Secretaria Nacional de Políticas de Promoção de Igualdade Racial (Seppir) em conjunto com o Ministério do Desenvolvimento Agrário criou o selo Quilombos do Brasil, uma vertente do Selo de Identificação da Participação da Agricultura Familiar (Sipaf). É um sinal que identifica os produtos que são oriundos de quilombos. A consultora do Sipaf Simone Brito Barreto explica a importância da política. “Quando se faz essa identificação da produção, a sociedade passa a conhecer essa categoria, que são os agricultores familiares. Cria-se também um diferencial competitivo dos produtos. Agrega-se valor”, afirma a consultora.

No Quilombo do Mesquita, 18 famílias possuem autorização para utilizar o selo. De acordo com Sandra Braga, pelo menos 60 famílias estão aptas a recebê-lo. “Nosso objetivo é concluir a tramitação e conseguir o selo para todos”, diz Sandra.

Seu Edilson Pereira Dutra, 60 anos, é um dos agricultores do Mesquita que possui o selo e fala da felicidade de ter seu produto valorizado e reconhecido. “Tem quase dois anos que eu recebi o selo. A gente trabalha na feira, uma vez por semana, no sábado, na Cidade Ocidental. Vendemos aqui na porta de casa também. É tudo orgânico e ficou conhecido, né, filha? O pessoal já sabe como são nossas verduras. Valorizou o nosso produto, sabe?”, conta o agricultor com orgulho. Nas terras de seu Edilson, são produzidas bananas, mandiocas, mixiricas e hortaliças. Sandra Braga também vê na iniciativa uma forma importante de valorização da cultura e do povo quilombola. “Essas políticas públicas são muito necessárias. O povo quilombola é trabalhador, preocupado com a preservação da natureza, das águas. Valorizar a história e cultura desse povo é também valorizar a natureza”, explica a presidente da associação.

O selo Quilombos do Brasil também está presente em outros estados do país, como a Bahia, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. De acordo com a Sead, são 71 permissões que beneficiam mais de 1200 agricultores quilombolas. Para a consultora do Sipaf, Simone Barreto, a iniciativa também gera impactos econômicos, já que cerca de 30% do Produto Interno Bruto (PIB) agrícola do país vem da agricultura familiar, segundo censo do IBGE, de 2006. Outro dado que reforça  é do Programa Aquisição de Alimentos (PAA) de 2016: dos mais de 27 mil agricultores familiares que forneceram produtos para o PAA, 939 são oriundos de comunidades quilombolas. A receita gerada por eles foi de quase R$ 7 milhões.

 

Sipaf Jovem

Outra vertente do Selo de Identificação da Participação da Agricultura Familiar é o Sipaf Jovem. Ainda em fase de discussão, o projeto vai buscar visibilidade para a juventude do campo. Para a Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (Sead), investir na juventude rural é uma forma de estimular a sua permanência no campo, garantindo o futuro da agricultura familiar.

Para Leonardo Tavera, analista técnico de Políticas Sociais da Sead,  a iniciativa Sipaf Jovem cumpre o papel de fortalecer a atuação do jovem rural. “Sem a juventude do campo, a gente corre o risco de não ter mais agricultura familiar. A possibilidade ameaça a nossa segurança financeira e alimentar, além de causar o enfraquecimento da discussão em torno dos alimentos saudáveis, que vêm, em boa parte, da agricultura familiar”, explica. Quase 80% dos alimentos que chegam na mesa do brasileiro, são oriundos dessa cultura, segundo a Sead.

De acordo com a nova edição do relatório anual da Organização das Nações Unidas (ONU), O Estado da Alimentação e da Agricultura no Mundo, “os habitantes das áreas rurais que se deslocam para as cidades provavelmente correm um maior risco de juntarem-se à população urbana pobre, em vez de encontrar um caminho para sair da pobreza”.

O relatório anual organizado pela ONU reforça a necessidade da existência de políticas como o Sipaf Jovem. “As políticas e os investimentos públicos de apoio serão essenciais para aproveitar a demanda urbana como motor de um crescimento transformador e equitativo, e as medidas elaboradas para garantir a participação dos pequenos agricultores familiares no mercado devem estar integradas às políticas”, conclui o documento.

 


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