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8 de Agosto de 2014, 13:21 , por Desconhecido - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.

Entre as virtualidades e presencialidades de Alicia

5 de Setembro de 2018, 11:33, por Blog do Danilo - 0sem comentários ainda

Foto: Nityama Macrini


Brasília, 2 de setembro de 2018

Kabia Teatro,

As técnicas de videomapping têm cada vez mais adentrado firme nos espetáculos de teatro de grandes produções. Em especial, obras de teatro musical, com franquias mundiais, dentre outras obras de circuito mercadológico vão se apropriando desses recursos que fazem parte de um caminho sem volta em tempos de avanços tecnológicos e de desenvolvimento de efeitos digitais nas linguagens artísticas. Artistas da música pop também têm se utilizado desses recursos nos seus shows, trazendo uma superabundância sígnica que envolve e deslumbra. Obviamente que diversos grupos consistentes na contemporaneidade também têm se debruçado sobre essa pesquisa estética interdisciplinar. Assim é o que vocês fazem em “Alicia después de Alicia”, espetáculo espanhol apresentado durante o Cena Contemporânea 2018.

Alicia é uma mulher de quarenta anos que vive um momento denso psicologicamente, onde se vê outra vez diante do sonho em se tornar artista – que parecia ter ficado perdido na infância. Tudo isso sob uma estética imagética inspirada livremente no clássico Alice no País das Maravilhas (1865), de Lewis Carroll. O caos interior da protagonista transborda em diversas imagens que se intercambiam entre a presencialidade inerente das artes cênicas e a virtualidade de um universo impalpável, criado por meio da tecnologia. E vocês, Kabia Teatro, mergulham sem medo nesse território irreal das artes digitais na cenografia propostas por Eskenitek e Joseba Uríbarri.

Daí me vi diante de um trabalho que parecia ofuscar a genuidade da presença que a cena teatral traz ao mesmo tempo em que a obra promovia um encantamento no público por conta dos recursos tecnológicos audiovisuais. Essa sensação me colocou no meio de dois mundos que, aos meus olhos, não conseguiam se abraçar de uma maneira fluida. Seria devido a uma questão ideológica na minha apreciação? Talvez. Mas também devido às características das apostas feitas por vocês. Diante disto, fui me distanciando e aguçando uma apreciação ativa para tentar compreender níveis mais profundos da proposta – as provocações trazidas, os discursos. Porém, as opções estéticas e poéticas feitas para o trabalho não me permitiam adentrar camadas mais adentro da própria obra – estava eu ludibriado.

Tentei ao máximo fugir de qualquer moralismo que pudesse haver na minha apreciação e, ainda assim, me vi distante. Cheguei à conclusão de que a minha questão não foi com a poesia visual trazida, mas com as escolhas dentro dessa poética. Os recursos digitais de fácil assimilação como pássaros, plantas, fogo, notas musicais, chuva, nuvens, pontos de interrogação, “FIM”, dentre outros, foram me colocando num lugar de obviedades e aquilo que poderia romper com as estruturas de uma encenação tradicional, parecia reforçar, por meio da tecnologia, tradições. Isso porque os signos que banham o público durante nossa apreciação talvez não sacudam o cotidiano, apesar dos recursos oníricos e da qualidade técnica da produção.

Com respeito,

Danilo.

*Danilo Castro é ator, graduado em Artes Cênicas (IFCE); jornalista, graduado em Comunicação (UFC), mestre em Artes cênicas (UnB) e autor do blog de críticas (www.odanilocastro.blogspot.com).



Pequenas ações não são ações pequenas

4 de Setembro de 2018, 10:29, por Blog do Danilo - 0sem comentários ainda

Foto: Thiago Sabino


Brasília, 28 de agosto de 2018.

Chico Simões,

Depois de assistir você em Mateus da Lelé Bicuda (DF), no Lar dos Velhinhos Maria Madalena, fiquei refletindo sobre a relevância das ações de descentralização do Cena Contemporânea 2018. O teatro, ainda que a gente se esforce, muitas vezes continua sendo algo elitista. E que dificuldade temos de nos desvencilhar desse status tão diferente da origem das artes cênicas, de que nasceram de forma concomitante, em várias partes do mundo, a partir de manifestações cênico-religiosas e populares.

Seu trabalho se debruça sobre as manifestações populares no Nordeste e óbvio que isso me afeta porque há em mim um atravessamento empático já que o Ceará é meu lugar de origem. Como nativo, posso destacar as referências que percebo de sua obra com o trabalho de Augusto Bonequeiro (CE), um dos ícones na manipulação de bonecos no país; com a turma da Carroça de Mamulengos (CE), família carioca hoje radicada no Cariri; e com o humor leve, desavergonhado e rasgado que paira no jeito de ser do cearense.

Obviamente que um festival não pode dar conta de todas as necessidades e carências que as políticas públicas culturais possuem. Porém, é importante que esse demarcador social, que apresenta trabalhos de qualidade em lugares como asilos, praças e regiões carentes, permaneça – inclusive como uma resistência à arte que é naturalizada como bem privado da elite. Ao mesmo tempo em que a gente deve demandar que o Cena continue com suas contrapartidas, pulverizando obras pelo Distrito Federal, temos que brigar para que uma arte descentralizada não dependa somente de um evento anual – e as experiências dos editais do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) têm levado isso em consideração fruto de nossa percepção e luta enquanto artistas.

Em Fortaleza, o grupo cearense Teatro Máquina realiza o evento bimestral “Pequenos Trabalhos Não São Trabalhos Pequenos”, fazendo de sua sede um espaço cultural desburocratizado, onde artistas diversos apresentam suas obras em processo ou “finalizadas” e dialogam sobre elas. A pequena ação não diminui a importância e o impacto dela para fortalecimento das linguagens, além de dar acesso ao público a experiências culturais gratuitas. É pouco, mas é alguma coisa. Assim como as obras do Cena que saem do plano piloto. É pouco para toda a demanda de um DF imenso e carente, mas precisamos dar ênfase à ação, que carrega sua grandiosidade.

Nicolas Bourriaud, em Estética Relacional (1998), propõe que toda arte é fruto de uma relação com o espectador, que não é passivo diante do que é apresentado. E não há como negar a sua disponibilidade, Chico, para o improviso a partir do que o público lhe oferece como material dramatúrgico. As palavras da sua persona Mateus, junto aos dizeres de todos aqueles idosos no Lar Maria Madalena, foram enriquecendo sua cena, sua estética do reisado, sua força colhida dos mestres da cultura popular. Tudo isso emaranhado numa rede de afetos que se potencializa à medida em que você abre espaço diante de um público com tanta experiência de vida e com tanto desejo de fala.

Cordialmente,

Danilo.

*Danilo Castro é ator, graduado em Artes Cênicas (IFCE); jornalista, graduado em Comunicação (UFC), mestre em Artes cênicas (UnB) e autor do blog de críticas (www.odanilocastro.blogspot.com).

Crítica feita a convite do Festival Internacional de Teatro de Brasília - Cena Contemporânea 2018.


[CRÍTICA] Bergman para mobilizar algo dentro e fora de nós

3 de Setembro de 2018, 17:51, por Blog do Danilo - 0sem comentários ainda

Foto: Rômulo Juracy


Brasília, 27 de agosto de 2018.

Selvagens,

Um dos mais aclamados dramaturgos e cineastas no mundo, o sueco Ingmar Bergman (1918-2007), é o mote que vocês, grupo francês The Wild Donkeys, utilizam para apresentar o espetáculo A Bergman Affair, que teve sua estreia mundial realizada no Teatro Sesc Garagem, durante o Festival Internacional de Teatro de Brasília – Cena Contemporânea 2018. Que honra para o Brasil abrir as portas para o teatro francês, que também existe fruto de luta e resistência diante de contextos tão perversos que várias partes do mundo andam sofrendo com a ascensão do fascismo – tanto que o festival nos questiona “De que lado você está?”.

Costumo recorrer ao teatrólogo argentino Jorge Dubatti para reafirmar que o papel do crítico é ser um filósofo do seu tempo, analisando as obras cênicas e relacionando-as com o agora. Sob as vestes do romance bergminiano “Confissões Privadas”, levado às telas do cinema em 1996, vocês contam o drama psicológico de Anna, uma mulher de quarenta anos que trai o marido com um jovem rapaz e se debruça sobre os dilemas internos diante do seu ato. Dito isto, não consegui apurar, ainda que eu exercesse um olhar empático e uma apreciação ativa, a grande questão que a obra de vocês traz para nós, público.

Talvez, o conflito interno de Anna, que carrega durante toda a obra a culpa cristã pela traição que cometeu, esteja descontextualizado com os novos tempos e demandas sociais contemporâneas. Isso não significa necessariamente uma reivindicação por um teatro “panfletário”, político ou engajado, mas uma provocação para que o trabalho de vocês não seja descolado dos nossos tempos. Então questiono: o que move vocês enquanto artistas que se debruçam sobre essa obra? O que vocês desejam, de fato, trazer como experiência ao público diante desta encenação? A força de uma mulher que segue seu desejo? Talvez.

O centenário de Bergman não pode ser o principal argumento para uma produção circular por festivais. Seria levar o teatro à sua própria falência diante da demanda de mercado que a data pode trazer. Ainda mais num contexto de ascensão do conservadorismo tanto no governo francês quanto no brasileiro, onde o Estado tem restringido direitos sociais. Não estou aqui depreciando a relevância do cineasta e dramaturgo para o mundo, tampouco a trajetória de vocês na árdua militância que é ser artista em tempos de ódio. Estou propondo uma crise para que vocês se debrucem sobre essas reflexões e consigam encontrar nas confissões privadas de Anna um lugar que nos atravesse, nos mobilize, nos arrebate, nos gere dúvidas, uma experiência que reverbere de forma intensa para além da redoma psicológica.

É preciso destacar o trabalho dos atores Olivia Corsini, Stephen Szekely, Gérard Hardy, Andrea Romano e Serge Nicolai, que com calma e leveza conduzem a narrativa num tom naturalista, vez por outra transpassado pelas epifanias da manipulação de seus corpos e de algumas cenas que carregam consigo uma força imagética. A exemplo do nado de Anna sobre as águas que refrescam o peso de sua consciência ou os corpos da protagonista e de seu amante, que se misturam transbordando um amor temeroso e lascivo.

Os princípios do Bunraku (fantoches japoneses) foram utilizados para a composição de movimentos corporais onde um ator manipula os demais em momentos precisos. Apesar do rompimento da calmaria que atrai nossos olhos por meio de gestos expandidos, a repetição dessas ações em diferentes personagens não nos traz nada novo, levando-nos a uma apreciação que pouco surpreende. A cenografia é genuína na sua simplicidade, porém se mostra completamente ausente de refinamento estético. Uma cama de solteiro, uma mesa, duas cadeiras, uma grade de apoio ao fundo. Tudo pareceu improvisado, como se fossem móveis da repartição onde o grupo se apresentou e não signos pensados estrategicamente para estarem ali da forma como são. Obviamente que essa pode ser uma escolha do coletivo, mas que pode nos levar à interpretação de “descuido”.

Essas são apenas algumas questões para fomentar o debate no intuito de fortalecê-los diante de todo o esforço e trajetória para a realização desta obra. Que possamos entender cada vez mais o teatro como um lugar potente convivência no intuito de movimentar, de forma feroz como o nome que vocês carregam no grupo, algo no mundo e em nós para gerar transformação.

Com respeito,

Danilo.

*Danilo Castro é ator, graduado em Artes Cênicas (IFCE); jornalista, graduado em Comunicação (UFC), mestre em Artes cênicas (UnB) e autor do blog de críticas (www.odanilocastro.blogspot.com).

Crítica feita a convite do Festival Internacional de Teatro de Brasília - Cena Contemporânea 2018.

Malala para ampliar a escuta como negação das censuras

3 de Setembro de 2018, 15:04, por Blog do Danilo - 0sem comentários ainda

Foto: Junior Aragão


Brasília, 2 de setembro de 2018

Cia La Leche (SP),

A política é um processo de negociação constante, uma disputa de narrativas que compõem a história. E somos seres políticos no mundo, estamos em um perene conflito ideológico do que será perpetuado ao longo dos tempos. O sistema impõe como marco a perspectiva de mais fácil assimilação, a visão do “vencedor”, em geral tido como o mais forte. Na contramão disso, uma força pulsa em nós para que não sejamos esmagados pelo tempo, pelo esquecimento, pela perversidade das estruturas de dominação no mundo. É nesse percurso que o espetáculo infantil “Salve, Malala!”, apresentado no Teatro Plínio Marcos, da Funarte Brasília, está caminhando.

Ao questionar “De que lado você está?”, o Festival Cena Contemporânea 2018 nos convoca para que possamos assumir um lado na história que nosso país vem tomando nesses últimos dois anos, após o golpe político que sofremos, que vem retrocedendo os direitos sociais arduamente conquistados. Vocês, ao nos trazerem a história contemporânea e real da jovem paquistanesa Malala, ativista que, por sua militância, quase morreu após levar tiros no rosto em um atentado dos Taliban (2012), estão encorpando a narrativa da luta, perpetuando a trajetória de uma adolescente que, aos 15 anos, foi responsável por uma revolução na educação paquistanesa, onde meninas vinham sendo impedidas de estudar.

A luta de Malala não está descolada das nossas demandas e disputas políticas. No Brasil, a resistência dos secundaristas, que tiveram a grade curricular reformada sem debate no governo ilegítimo, em 2017, flexibilizando disciplinas essenciais como artes, história e filosofia, são um exemplo. A luta dos universitários em todo o país, que vivem hoje o sucateamento das universidades federais após a emenda constitucional 95/2016, responsável por congelar investimentos em educação até 2036, é outro exemplo dentre tantos massacres que o Brasil vem sofrendo em áreas essenciais. Tudo isso só evidencia o quanto o trabalho de vocês é basilar, atravessando diretamente o conceito proposto pelo festival.

A participação das crianças, quando são questionadas sobre o que querem para o futuro, é um achado no trabalho – momento em que vocês conseguem interagir com aquela plateia sedenta por participação. Então questiono: porque não ampliar e qualificar essa escuta? Por que não perguntar para elas o que fazer para resolver o problema da educação no Brasil já que o trabalho de vocês é uma convocatória à militância política? A participação social é um princípio fundamental previsto na nossa Constituição de 1988, construída com base na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), da Organização das Nações Unidas. 66 anos depois desse marco regulatório no mundo, Malala recebeu o Prêmio Nobel da Paz por agir SEM TEMER em nome do seu povo. Ainda assim, continuamos sendo submetidos, em diversas nações, à censura, à tortura, à violação das nossas liberdades e dos nossos direitos sociais e políticos. Por isso, talvez instigar a fala das crianças pode potencializar ainda mais a obra de vocês, além de colocar-lhes diante do risco do improviso durante os diálogos.

Na composição dos artistas da cena Alessandro Hernandez e Léia Rapozo, vemos uma série de personagens que vão se construindo a partir da inventividade e fabulação propostas com signos trazidos ao palco – sapatos, vestidos, casacos e outros objetos. Nesse processo, trago à reflexão o tom proposto para a interpretação. Pode ser um dilema quando nos colocamos em cena como crianças, tarefa tênue. O limiar entre um trabalho consistente ou infantilizado pode ser borrado. Então cabe a nós nos debruçarmos ainda mais sobre esse terreno para que as sutilezas e as inocências naturais das crianças não se transformem em um simulacro no nosso trabalho enquanto atores e atrizes.

Salve, Malala! Salve a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas!

Danilo.

*Danilo Castro é ator, graduado em Artes Cênicas (IFCE); jornalista, graduado em Comunicação (UFC), mestre em Artes cênicas (UnB) e autor do blog de críticas (www.odanilocastro.blogspot.com).

Crítica feita a convite do Festival Cena Contemporânea 2018

Um pedaço de crítica morta ao Encerramento do Amor

3 de Setembro de 2018, 14:43, por Blog do Danilo - 0sem comentários ainda

Foto: Júnior Aragão


Brasília, 31 de agosto de 2018.

Ada, João, Taís e Diego,

Queria eu poder queimar a palma da minha mão aos poucos, sobre a chama de uma vela, enquanto filmo o recorte desta imagem, como se o congelamento desta dor que me arderia fosse possível minimamente de doer em vocês. E que isso fosse o esgarçamento mais próximo da crítica que preciso enviar agora. E que vocês acompanhassem lentamente a violência deste texto audiovisual carbonizando cada fresta viva dos caminhos que a história da minha pele já traçou.  Ou quem sabe se essa mesma mão rasgasse-me boca adentro para colher as cordas que vibram meu corpo travestido de voz, em seguida colocasse o órgão num vidrinho e enviasse a vocês, seria possível desdizer-me em texto escrito para que o impacto desse pedaço de crítica morta, há pouco viva, ferisse o âmago vocês.

Levantem a cabeça que essa crítica é pra doer como performance do que vocês são em cena! E o que é o amor senão a radicalidade de uma entrega mútua que carrega consigo interseções de bonança e dor? E nós, enquanto seres amantes no mundo, somos desprevenidos para encarar o fim. Ensinaram errado. Ensinam errado. Talvez pela fragilidade que temos em encarar realidades, conhecemos o ódio a partir do contato direto com ele, sem qualquer aviso prévio que possa nos fortalecer – o que cega não é o amor, mas a maneira como nos ensinam sobre ele. Daí vocês nos escancaram em “Encerramento do amor”, apresentado durante o Cena Contemporânea 2018, um tempo dilatado que percorre três setores de áreas isoladas: a pompa discursiva de João, o número de sapateado de Taís [que rasga absurdamente um fluxo de vida para anestesiar as feridas expostas] e a crueza argumentativa da réplica de Ada.

A verborragia de mais de duas horas de espetáculo que vocês nos trazem me invadiu estranhamente pós-dramática, ainda que seja textocêntrica na tradução da premiada obra francesa “Clôture de l”Amour”, de Pascal Rambert, que veio ao mundo gritando a força do fim durante o Festival de Avignon, em 2011. Uma força que vocês nos trazem contra a correnteza do que tem sido alguns recortes do teatro contemporâneo. Essa memória vocês não me arrancam, nem o gozo de João secando sobre a barriga de Ada, nem meu cérebro estourando como uma melancia que cai no tablado após horas de uma deleitosa tortura. Vocês  Ada, João, Taís e Diego, em vez darem rota de fuga e negarem o texto como tantas encenações da nossa geração, preferem mantê-lo refém de uma encenação compacta e direta, onde as palavras são como corpos vivos, são imagens, são radicais a ponto de versarem com o teatro de Ricardo Guilherme, feito no Ceará – que protagoniza o trabalho de ator e de atriz em relação aos outros elementos da cena. Como isso me atravessa pós-dramático se é ele que justamente esfacela a noção de drama e as hierarquias ocidentais que herdamos?

Eis que vocês construíram uma poética que, ao mesmo tempo em que muitas vezes é olhada como defasada, é também pulsante enquanto uma obra que dá nós e traz conflitos e crises para as caixinhas e definições da própria linguagem. Talvez estejamos diante de um marco possível nesse meu pequeno olhar da cena brasiliense durante os cinco anos em que vivo como novo candango – não à toa esse texto se complementa ao desenho-crítica adiante. É que as palavras nem sempre dão conta de tudo, vocês sabem. Em All About Love – New Visions (2010), bell hooks discorre sobre as diversas possibilidades de entendimento acerca do amor. São reflexões que desmistificam a noção de amor romântico, normalmente associado também à ideia de posse e poder. Para ela, “amor e abuso não podem coexistir”. O amor, apesar de sua complexidade em interseções de afetos, não é uma condição cega, mas uma escolha de respeito mútuo entre os sujeitos, como um lugar de justiça social capaz de gerar uma potência transformadora. É o que Ada nos ensina ao desbancar o discurso do macho. Se essa potência não está mais sendo possível, é sinal de que ele já encerrou.

Levanto a cabeça – abro a porta – e vou embora.

Danilo.


Danilo Castro é ator, graduado em Artes Cênicas (IFCE); jornalista, graduado em Comunicação (UFC), mestre em Artes cênicas (UnB) e autor do blog de críticas (www.odanilocastro.blogspot.com).

Crítica feita a convite do Festival Cena Contemporânea 2018