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Especialista em empreendedorismo dentro de comunidades carentes traça o perfil do pequeno empreendedor brasileiro

12 de Janeiro de 2018, 12:04 , por Mariana Lozzi Teixeira - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Vinicius Mendes descreve sua vida como “uma série de improbabilidades”. Professor na Universidad de Buenos Aires, ele também é autor de A Riqueza das Favelas: Empreendedorismo Entre Morros e Vielas. O livro chamou a atenção da imprensa por se debruçar sobre o perfil do micro e pequeno empreendedor em comunidades carentes. Aos 31 anos, o empresário e professor é dono de uma trajetória marcada tanto pela

necessidade de assumir riscos nos negócios como de refletir em cima da cultura empreendedora na América do Sul, continente que, segundo ele, ostenta marcas distintivas em relação a outras economias.  

Desde a infância e adolescência em Porto Alegre, em uma periferia, até a entrada no mundo do empreendedorismo com um carrinho de crepe aos 14 anos passando pela venda de filiais de uma empresa de eventos da qual era proprietário, Vinicius Mendes teve o empreendedorismo como uma constante em sua vida. Empreendedor “por necessidade”, como ele mesmo define, a vontade de compreender o próprio sucesso, assim como o sucesso de milhares de brasileiros que abrem negócios sem conhecimentos teóricos e educação formal, levou Vinicius à carreira acadêmica. Intrigado com a escassez de levantamentos e estudos sobre a economia nas favelas e curioso a respeito da dinâmica dos micro e pequenos empreendedores, o empresário gaúcho traçou perfis que escapam dos ambientes das grandes companhias e desembocam nas ruas.

O lançamento do livro By Necessity - Plano de Negócios por Necessidade retoma o debate sobre o empreendedorismo informal e propõe um plano de negócios voltado para o micro e pequeno empreendedor. A metodologia de Vinícius é acessível e leva em conta as limitações que frequentemente são impostas àqueles que empreendem por necessidade, como a falta de tempo, ausência de investimento inicial e de conhecimentos teóricos sobre marketing e administração, assim como a necessidade de retorno financeiro imediato.

Além de rodar o país capacitando empresários em favelas e periferias por meio do programa Mão na Massa, que usa da metodologia desenvolvida no livro By Necessity, Vinicius atua como consultor no Plano Nacional de Desenvolvimento de Startups para a Juventude. O Plano é coordenado pela Secretaria Nacional de Juventude (SNJ) e visa elaborar, com a participação de órgãos públicos, empresas privadas e da sociedade civil, políticas governamentais de alcance nacional. O objetivo é ajudar empreendedores em potencial a ultrapassar barreiras que os impedem de abrir o próprio negócio, como a dificuldade de conseguir financiamento, a baixa escolaridade e os entraves burocráticos.

Em uma conversa com a Revista Brasil Mais Jovem, Vinícius fala sobre a rica complexidade do empreendedorismo nas favelas latino-americanas.

 

Você começou a empreender cedo, e por necessidade. Como a sua experiência nos negócios influenciou sua trajetória acadêmica?

Minha família era de classe média baixa e meus pais tinham muita dificuldade de segurar as contas da casa. Como eu era muito consciente do aperto financeiro, não tinha coragem de pedir dinheiro, nem que fosse para comprar um refrigerante na escola. Quando eu completei 14 anos, surgiu a oportunidade de bancar essa vontade de ter bens aos quais a gente não tinha acesso. Esse início marcado pela necessidade me ajudou a reconhecer características da minha jornada em histórias de pequenos empreendedores em comunidades carentes que, sem nem considerar participar do mercado formal, dão vazão ao sonho de ascensão social. Essa percepção não só influenciou a minha vida acadêmica, como me impulsionou para ela. Eu queria entender como essas pessoas que, sem investimento inicial e conhecimentos teóricos, conseguiam abrir negócios e ser bem sucedidos, como foi o meu caso. Ficava imaginando se existiam padrões ou tendências na hora de pensar soluções, o quanto disso era sorte, habilidade e intuição.

Por que em ‘A Riqueza das Favelas: O Empreendedorismo entre Morros e Vielas’ você toma como objeto de estudo as favelas da Rocinha, no Rio de Janeiro, e a Villa 31, em Buenos Aires, Argentina?

Eu escolhi essas favelas por causa de um imprevisto que aconteceu na época que eu morava no Rio de Janeiro e era consultor da MGN Consultoria, onde trabalhei para o Instituto Unibanco em um projeto de redução do índice de evasão escolar. Um dia, ao pegar uma van informal para chegar à Barra da Tijuca, fui surpreendido quando percebi que a van não contornava a favela da Rocinha, mas passava dentro dela. Fiquei frente a frente com a primeira metralhadora que vi na vida, senti medo de morrer, os traficantes na posse das armas pediram para revistar o carro e todos os passageiros. Cerca de 500 metros adiante do ponto do tráfico, estendiam-se diante de nós filas homéricas em frente a filiais do Bradesco, da Caixa Econômica, carrocinhas de cachorro quente, lojas lotéricas, mercadinhos, um comércio muito diversificado. Fiquei impressionado com a coexistência harmônica do tráfico e de bancos a poucos metros de distância, o contraste me assustou. Tive a impressão que aquele cenário indicava prosperidade econômica e abertura para investimentos. Alguns anos mais tarde, ao chegar em Buenos Aires para fazer o mestrado, aconteceu uma situação parecida, decisiva para a minha trajetória. Tomei um táxi que passou por uma cidade interminável, com pequenas casas emendadas. Perguntei que cidade era aquela, ao que o motorista respondeu, impressionado com a minha ingenuidade: “Não é cidade, essa é a Villa 31”. O tamanho daquela favela me estarrecia, fiquei me perguntando: ‘Será que ela é igual à Rocinha? Será que aqui tem filial de banco e de fast food?”. Foi a partir dessas indagações que decidi fazer um estudo comparativo entre as duas comunidades, que se destacam por serem as maiores favelas da América Latina.  

Há aproximadamente 200 mil favelas no planeta e 827 milhões de pessoas que as habitam, sendo que, até o ano de 2050, a previsão é de 3 bilhões de moradores. Como você entende a escassez de estudos e pesquisas sobre esses ecossistemas empreendedores?

Acredito que do ponto de vista da academia, comunidade científica, poder público e iniciativa privada, é mais fácil ou mais cômodo produzir conhecimento excluindo quase 40% da população da América Latina. Os outros 60% possui, comprovadamente, mais poder aquisitivo, e, justamente por isso, qualifica como um ‘objeto de estudo’ mais lucrativo, com retorno financeiro certo. Quanto ao poder público, os 40% mais pobres não têm poder perante a mídia, nem contatos influentes para cobrar de governantes e formadores de opinião que se manifestem perante essa parcela da população. Os pesquisadores e as instituições de ensino e pesquisa não se sensibilizam para esses temas porque se trata de uma necessidade silenciada. Essa parcela da população é constantemente evitada porque não é vista como fonte potencial de riqueza, sim de problemas. Grande parte dos estudos e levantamentos oficiais restringem a favela ao recorte da violência, pobreza e das atividades criminosas, como se esses aspectos bastassem para entender a situação em toda sua complexidade. Praticamente inexistem estudos acadêmicos e científicos sobre aspectos considerados positivos dentro dessas comunidades. É assustador dizer que, hoje, não existe nenhum órgão nacional encarregado exclusivamente de produzir dados sobre essas questões. Caso houvesse esse entendimento ficaria mais fácil apontar com precisão quais ferramentas poderiam ser criadas pela iniciativa privada e pelo poder público para incentivar moradores de comunidades carentes a ascender financeiramente e, de quebra, aquecer a economia.

4. Qual o perfil do empreendedor ‘por necessidade’?

O empreendedor por necessidade é criativo, com pouca técnica e escasso conhecimento em relação ao mundo dos negócios. Ou seja: ele desenvolveu habilidades específicas em algum ofício, mas não sobre o ecossistema que cerca esse ofício. Esse perfil de empreendedor não costuma ter investimento inicial e, quando tem, são valores baixos, oriundos de rescisões de empregos anteriores ou de ajuda familiar. São pessoas de classe baixa, algumas de médio-baixa e iniciam empreendimentos para sanar necessidades básicas, como alimentação. A figura do empreendedor por necessidade é marcada pela perspicácia e resiliência, porque eles são extremamente adaptáveis. Pelo que observei ao longo do desenvolvimento da pesquisa, alguns deles acreditam que só vão mudar a partir de suas atitudes, e não de ações do poder público e da iniciativa privada. Em contrapartida, o investidor com maior carga de conhecimento técnico e teórico vislumbra empreendimentos com investimento inicial médio ou alto e pensa a partir de uma equipe, não considera trabalhar sozinho.

Como podemos ter uma ideia da dimensão do impacto dos micro e pequenos empreendedores na economia?

Estamos falando de um impacto de aproximadamente 30% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Essa é a análise econômica, mas, a nível de desenvolvimento social, existem aspectos que não podem ser ignorados. Ao pensar em uma criança que começa a enxergar as possibilidades de futuro e a sonhar, basta que ela olhe para o lado e vislumbre as opções de atividades ilícitas para poder construir um conceito diferente de sonho. Dentro de comunidades carentes, são numerosos os exemplos de pessoas que ascenderam socialmente de formas ilegais, e isso passa uma mensagem. Com as referências de micro e pequenos empreendedores nas figuras de pais, amigos e parentes, as crianças e os jovens em idades decisivas se veem diante de novos sonhos e horizontes, o que representa uma chance real de diminuição da violência. O surgimento desses empreendimentos gera cada vez mais empregos e garante a autonomia e emancipação da juventude. Essas possibilidades, por sua vez, acarretam no aumento da iniciativa dos jovens de buscar qualificação técnica e profissional.  

A ideia de inovação nos negócios é relacionada com recorrência ao conceito de Startups. Quem é o ‘empreendedor de Startups’ e como ele se diferencia do perfil do empreendedor brasileiro?

Esse perfil de empreendedor busca a escala imediata do seu produto ou ideia de negócio. Já na fase de modelagem, ele pensa na escalabilidade e no investimento necessário, e procura investidores para financiar a empreitada. O empreendedor de Startup alinha o seu pensamento à necessidade de escala e, consequentemente, de inovação e tecnologia, visto que é difícil garantir a primeira sem as outras duas. Em geral, esse não é o perfil do empreendedor brasileiro -- somos mais tradicionais. A partir do momento em que altos investimentos, tecnologias e escalabilidade são requisitado, o empreendedor brasileiro de perfil tradicional não se vê contemplado pela lógica das Startups. As razões variam desde a falta de tempo para o planejamento até a falta de contatos no ramo e de conhecimentos técnicos e teóricos. Ele se vê desde o início excluído desse circuito, sua lógica operacional é outra. Imediatistas, os nossos empreendedores precisam ter retorno a curto prazo, porque são movidos pela necessidade imediata.   

Você também é autor do programa ‘Mão na Massa’ e roda o país capacitando empreendedores de baixa renda. Como funciona o modelo de negócios que você propõe aos seus alunos?

O programa Mão na Massa tem por base um modelo de negócios que foi testado durante quatro anos da Argentina, em universidades onde eu leciono. Resumidamente, eu desenvolvi uma metodologia para ensinar pessoas com baixo ou nenhum conhecimento técnico e teórico a montar planos de negócios a longo prazo e gerir empresas com responsabilidade financeira. Escrevi de forma ‘simples’ alguns conceitos do mundo do marketing e das finanças, queria aproximar conhecimentos acadêmicos e teóricos da realidade de quem é movido ao empreendedorismo por necessidade. Testei a metodologia no Morro do Cantagalo, no Rio de Janeiro, em fevereiro deste ano e 70% dos alunos da primeira turma abriram empresas antes que o curso tivesse terminado. Na segunda turma, fiz com que os alunos desenvolvessem planos de negócio e durante 90 dias e encarreguei os consultores do programa a acompanhar pessoalmente o andamento das empresas e realizar consultas mensais. Nas outras turmas tivemos pelo menos 50% de aproveitamento, com a abertura de empresas que começaram a lucrar em menos de 30 dias.  

Qual o papel da juventude na criação e desenvolvimento de novas empresas?

Nos tempos atuais, o grande papel de juventude na criação e desenvolvimento de novas empresas é fomentar ideias inovadoras visando negócios sustentáveis, empreendimentos que consigam pensar além da venda e da lucratividade imediata. Precisamos de jovens que se perguntam constantemente: “Como isso afeta a sociedade a médio e longo prazo? Nós vamos prejudicar o nosso meio? Quem será impactado por essa venda? Esse impacto é positivo em quais pontos? E negativo?”. O jovem de hoje, diferente de gerações anteriores, tem uma capacidade de discernimento oriunda de erros cometidos no passado e é capaz de pensar coletivamente, porque entende que as consequências de uma ação mercadológica agressiva e imediata podem ser catastróficas e gerais.

Quais características são consideradas típicas da juventude dentro do empreendedorismo?
A ansiedade é a primeira característica que me vem em mente (ri). Ao mesmo tempo em que ela pode atrapalhar na modelagem de um negócio, é importante e positiva no ponto em que serve como combustível emancipador da juventude. O jovem não se amedronta por desafios ou pela burocracia envolvida neles, e isso se deve ao espírito aventureiro, que está intimamente ligado à vocação para empreender. Essa ousadia pode ser positiva, visto que existem momentos em que é necessário arriscar, sair da zona de conforto, mas também pode ser prejudicial quando a situação exige prudência. A facilidade com as conexões --- sejam elas online ou offline, visto que são ambas imprescindíveis no mundo dos negócios, mas de maneiras diferentes -- também é uma qualidade distintiva dessa geração. Acredito que essa sede de comunicação, de contato, seja um dos maiores atributos da juventude, e que ela pode trabalhar a seu favor no início de uma trajetória no empreendedorismo. A forte presença nas mídias sociais e em ambientes virtuais, por exemplo, compreende as demandas de um mundo globalizado, com processos muito diferentes daqueles que regiam o comércio e a indústria há apenas algumas décadas e pode ser um indicativo de sucesso, se feito de maneira inovadora.   


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