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Entrevista Linn da Quebrada: Amapô de carne e osso

3 de Dezembro de 2017, 20:22 , por snjuventude@gmail.com - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Amapô de Carne e Osso

No dia Internacional da Memória Trans, a artista multimídia Linn da Quebrada fala sobre o sucesso do seu álbum de estreia e rememora as várias quebradas que já passaram por sua vida

A quarta-feira de 6 de outubro deste ano foi atípica para a paulistana Linn Santos, ou, como o Brasil a conhece hoje, Linn da Quebrada. Na época, a cantora se deparava com a chegada da data de lançamento do seu álbum de estreia, Pajubá, produzido por meio de crowdfunding, um modelo de financiamento coletivo para projetos culturais e novos empreendimentos. Com pouco tempo de campanha, as doações de fãs ao redor de todo país não só cobriram a meta estipulada para a produção do CD, mas a ultrapassaram. A chegada das 12 faixas de Pajubá na plataforma digital Spotify garantiram que Linn e sua equipe tomassem um susto: com apenas três dias de estreia, cinco músicas do álbum estavam no ranking dos 50 hits brasileiros mais ouvidos na semana. Ao fim daquela quarta-feira de lançamento, Linn reconheceu que sua voz havia ultrapassado as fronteiras da periferia, mas garantia que, de dentro dela, a quebrada não sairia jamais.

Aos 27 anos de idade, Linn da Quebrada é dona de uma carreira em ascensão que começou com o lançamento de músicas e videoclipes que acumularam milhares de visualizações na plataforma YouTube. O trabalho da cantora é marcado pela irreverência das letras e por tiradas poéticas e provocativas que lançam questionamentos sobre gênero, sexualidade, liberdade de expressão, racismo e misoginia em “um papo reto, que não é fofoca”, avalia BadSista, produtora de Pajubá.

Desde o ingresso meteórico na indústria musical em 2016, Linn embarcou na turnê nacional Bixarya, protagonizou uma campanha de coleção da marca de calçados Melissa, foi homenageada com a música Lina X pela cantora Liniker Barros, e se apresentou no programa Amor & Sexo, da emissora Rede Globo, como convidada especial.

Desde então, dedicou-se à performance e à música, onde conseguiu sucesso imediato com o lançamento do hit Envaidecer, que questiona a heteronormatividade das relações e elogia diferentes formas de afeto em tiradas mordazes como: “Eu gosto mesmo é das bichas, das que são afeminadas/ Das que mostram muita pele, rebolam, saem maquiadas” e convida o “macho discreto” a “bater um papo reto”.

 

“Eu escolhi, e a todo momento eu escolho ser quem eu sou”

A controvérsia que acompanhou o lançamento de Envaidecer garantiu que Linn da Quebrada virasse assunto em bocas ao redor de todo país e se tornasse alvo tanto de elogios pela coragem de “falar suas verdades” quanto de críticas pela irreverência e o estilo “incomum”. “O que às vezes escapa às pessoas é que a mensagem das minhas músicas é o amor”, rebate Linn, sobre os comentários dos opositores do seu trabalho nas mídias sociais.

Aqueles que já se acostumaram com o visual camaleônico e a constante experimentação estética que marcam o estilo de Linn da Quebrada talvez não a reconhecessem no menino Linno Santos. Crescido entre as cidades de Votuporanga e São José do Rio Preto, no interior paulista, Linno foi criado pela tia enquanto a mãe trabalhava como empregada doméstica para garantir o seu sustento. De família alagoana, sua infância foi marcada pela influência religiosa, e no início da adolescência, viu-se cercado por conflitos protagonizados pela sua identificação de gênero, sexualidade e a moral bíblica.

Quando completou 14 anos, Linno conseguiu um emprego de copista em um salão de beleza. Lá, conheceu a primeira travesti que viu na vida e, depois de um aproximar tímido, relutante, os dois tornaram-se amigos, tamanho era o encantamento do garoto para com a cliente. Apenas três anos mais tarde, porém, teria início o processo de dar voz à Linn da Quebrada, que já dava mostras de existência e sinalizava caminho sob a pele de Linno.

Anos mais tarde, erradicada no extremo leste de São Paulo e moradora da Fazenda da Juta, a já assumida Linn da Quebrada encontraria na música uma nova forma de expressão. As batidas repetitivas do funk que ecoavam bairro adentro a aproximaram do universo dos MC’s (sigla para Mestre de Cerimônia), mas também a fizeram questionar a falta de representatividade dentro do funk, motivo pelo qual ela não se reconhecia nas letras. Ávida para se comunicar com pessoas atingidas pelos mesmos conflitos que ela, Linn passou a cantar sua história e, desde então, dedicou-se a ‘criar pontes entre as pessoas’.  

 

PAJUBOX

Não foi à toa que Linn da Quebrada nomeou seu álbum de estreia Pajubá. Nome de um dialeto com origem Nangô e Yorubá, a expressão é comum entre praticantes de religiões de matriz africana, como a umbanda e o candomblé. Durante a década de 1970, a palavra ganhou popularidade dentro da comunidade LGBTQ e passou a significar ‘novidade’, ou ‘babado’. A recorrência do uso da expressão garantiu que fossem organizados ‘Dicionários Pajubás’, que continham séries de palavras e expressões próprias da cultura LGBTQ. A escolha desse nome para o álbum adquiriu, para Linn da Quebrada, o sentido de homenagem, e ela adianta que, nas 12 faixas do CD, existe uma preocupação constante com o uso de elementos sonoros típicos da cultura africana, em uma evocação da ancestralidade dos negros brasileiros. As letras das canções também são puro Pajubá, por fazerem menção constante ao dia a dia no universo ‘transviado’ e ‘periférico’, nas palavras da cantora.

“Eu encontrei força para decidir ter a coragem de ser quem eu sou e ao mesmo tempo ser quem eu quisesse ser”

 

As suas letras são extremamente poéticas. Você se considera naturalmente inspirada ou existe um processo criativo que te ajuda a compor?

As minhas letras vêm de um lugar de dentro de mim e são escritas em cima da minha vivência, da minha experiência. São recortes de memória, verdades que eu invento ao longo da minha trajetória. Elas falam a respeito do estado do meu desejo, onde ele está, para quais direções ele aponta. Eu faço questão de construir o meu roteiro, a minha própria história, e isso vem a partir de uma percepção íntima da vida, desde as coisas miúdas até os grandes acontecimentos, das pessoas com quem eu me encontro e com quem quero repartir experiências em busca de fortalecimento. Acho que é justo dizer que as letras das minhas músicas vêm da minha vontade de inventar força, coragem, e de ser fiel à vida que pulsa em mim, selvagem como ela é, estranha e marginal como ela pode ser.

 

Você frequentemente se refere ao seu álbum de estreia, Pajubá, como uma longa gestação. Como foi o parto desse filho?

Olha, foi um parto bem intenso, mas, acima de tudo, muito prazeroso. E inesperado, porque eu nunca prospectei esse lugar na indústria musical, então ainda é um grande susto pra mim, uma novidade que eu redescubro a cada dia. Eu já vinha vivendo o meu corpo enquanto processo artístico, no sentido de construir nele uma experimentação estética radical. Mas a música, dessa forma como ela vem acontecendo, ainda é algo muito novo, são terras desconhecidas. Ao mesmo tempo, tenho clareza que aquilo que eu busquei ao longo de toda minha vida é o contato, porque nós sabemos que, para alguns corpos, o destino que se traça e cujo cumprimento se espera é a solidão, a marginalidade. Essa talvez tenha sido uma das únicas constâncias em mim, a necessidade de criar pontes, de me comunicar com os outros, trocar experiências, afetos, vínculos, falar sem medo sobre os nossos sonhos, sobre as nossas feridas, sobre o choro engolido e a risada refreada. A minha música é mais um instrumento para isso, para perceber que não estamos sozinhas.

 

Quando o seu corpo deixou de ser símbolo de repressão e passou a ser ferramenta de transformação?

O meu corpo nunca foi um fardo para mim, mas acredito que cada um sabe dos desafios de carregar o próprio corpo e das consequências de ser quem se é. Cada um de nós vai passar pelas suas violências, pelas suas opressões, desfrutar de seus privilégios e vivenciar de forma muito particular o poder, sendo ele exercido por você ou contra você. O meu corpo só passou a ser a minha morada, o meu retrato mais fiel e honesto, no momento em que eu percebi que, ao reconhecer as minhas fragilidades, eu ia de encontro à minha potência. Em tudo aquilo que diziam que eu não deveria ser, que eu deveria temer e negar, eu encontrei força e resistência. E resistência, para mim, é justamente esse movimento em que tentam te impedir de agir, mas você continua a pulsar. Foi assim o meu encontro com esse ser-corpo, com esse corpo preto, transviado, bicha-travesti, periférico. No ecoar dessas minhas vozes, desses conflitos em constante renovação, eu encontrei força para decidir ter a coragem de ser quem eu sou e ao mesmo tempo ser quem eu quisesse ser, sem que isso tivesse que ser necessariamente um lugar fixo, premeditado. É uma escolha. Eu escolhi, e a todo momento eu escolho ser quem eu sou.

 

É imprescindível para a Linn da Quebrada ter o direito de se reinventar?

Isso pra mim é liberdade. Eu gosto de admitir que, a cada experiência, a cada troca, a cada pessoa que encontramos, nós nos transformamos. O ser humano é essa coisa fluida, em constante transição. Eu prezo pelo direito de decidir pela minha memória. Até hoje as pessoas pretas têm o acesso à memória restrito ou negado, e são privadas das próprias histórias, do contato com a ancestralidade. Então, do jeito que eu entendo, assumir o próprio corpo, a própria pele, e se propor a escrever a sua história com esses atributos é assumir a autoria da sua narrativa, da sua vida. Eu conto a minha história com o direito resguardado de, a cada momento, poder desviar o meu caminho, mudar de rumo e ramificar destinos. Disso, não abro mão. A música e as pessoas que tenho encontrado nessa trajetória me mostraram que ancestralidade tem a ver com história, com memória, com corpo e, incrível que possa parecer, também tem a ver com o presente. É uma palavra profundamente atual, que não se limita ao passado, porque a ancestralidade também é construída no agora. Temos o poder de determinar o que vai acontecer daqui em diante.

 

Nos tempos atuais, qual é a cara do racismo, ou dos racismos?

O racismo hoje em dia é muito sofisticado, ele tem técnicas sutis, requintadas de sobreviver, de se proliferar. Inclusive, não é raro nos depararmos com situações nas quais não somos capazes de reconhecer de imediato as marcas de abuso e preconceito. É possível oprimir e exercer poder nas nossas relações pessoais e íntimas sem nem perceber o desequilíbrio de forças. Não se trata de identificar e combater o racismo apenas no outro, como se fosse um problema que viesse de fora, uma coisa externa a nós. Quanto dos nossos desejos, das nossas relações, são tocadas pelo racismo? O quanto de preconceito influencia os nossos olhares, os nossos afetos, as pessoas com quem interagimos, com quem nos deitamos, quem beneficiamos financeira e economicamente, a escolha daqueles para quem destinamos o nosso amor? Quem são as pessoas que estão em nossa volta? No nosso trabalho? No nosso ciclo social? De quem naturalmente, ou naturalizadamente, nós gostamos? A resposta que “É questão de gosto” é uma falsa verdade, porque gosto se constrói - e se desconstrói. O racismo só é tão sutil, tão diverso e sofisticado, porque está impregnado em nós, e garante sua sobrevivência na omissão.

 

Como nasceu a Linn da Quebrada?

Difícil falar do nascimento da Linn, porque a impressão que eu tenho é que ela sempre esteve aí, com o movimento, como se fosse algo anterior a mim, criada da necessidade de resistir, de acusar o engodo. O lugar que eu ocupo hoje possibilita que eu tenha um alcance muito maior do que a maioria das bichas e travestis. Desde o momento em que eu comecei a pesquisar sobre o meu corpo, experimentar as roupas que eu gostaria de usar, elaborar os meus próprios pensamentos, formular ideias e ações, já existia, em mim, a Linn da Quebrada. Eu tinha sede de propor comunicação, de começar um diálogo, esse sempre foi o meu norte. Ao mesmo tempo, a Linn que utiliza a música como ferramenta para se conectar com as pessoas é recente, porque faz apenas dois anos que eu comecei a escrever minhas músicas, que eu venho fazendo esse barulho. A Linn da Quebrada é filha de todas as quebradas pelas quais eu já passei, desde a infância no interior de São Paulo, até a adolescência morando com a minha mãe e buscando um diálogo com ela, tentando entender o meu corpo, aceitar os meus desejos, alcançando, por fim, o meu encontro comigo mesma. A Linn é um mosaico de todas as pessoas que eu já fui, fragmentos desse espelho que eu mesma quebrei, para, a partir daí, reconstruí-lo incessantemente. Eu sempre digo que não sou cantora, estou cantora. Sou a Linn da Quebrada hoje, mas não posso prometer a ninguém que vou continuar a fazer isso, que permanecerei a mesma. Não prometo fidelidade nem a mim mesma.

 

Qual é a função da arte?

Pra mim, arte não tem a ver com nada disso. Não tem a ver com esse espaço, com essa câmera, com as suas perguntas ou com a minha exposição diante de um público determinado. Ser artista para mim tem a ver com a possibilidade de criar em cima da minha própria existência. É impressionante e inspirador observar que, apesar de toda a pressão para se encaixar e produzir determinadas coisas de determinada forma, apesar da demanda compulsória por consumir e acumular bens, existem pessoas que refletem em cima da estrutura e se opõem ao fluxo. Elas conseguem fazer arte, e é uma arte muito significativa, mesmo que a grande maioria dos artistas nunca chegue ao circuito comercial ou lucrem em cima dos seus trabalhos. Posso dizer com o peito cheio que, apesar de todas as tentativas de me silenciar, sou autora da minha própria história, e espero que, no meu canto - ou melhor, no meu grito - outras pessoas possam ouvir um pouco da própria voz. É difícil nos engolir. Por mais que não esperem, ainda estamos vivas, continuamos vivas, e, hoje, algumas de nós têm a possibilidade de compartilhar nossas histórias, fazê-las chegar a outros meios. Para mim, isso é arte.

 


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